O Reino de Deus é mesmo invertido. E quanto mais eu penso nisso, mais percebo como ele desmonta a lógica que a gente aprende desde cedo.
No mundo, a conta é simples: se você é jovem demais, ainda não está pronto; se é velho demais, já passou do auge. Adolescente é visto como impulsivo, imaturo, “um projeto em andamento”. Idoso, muitas vezes, é tratado como alguém que já cumpriu sua parte e agora só observa. Mas quando eu olho para a Bíblia, vejo Deus atravessando essas classificações como quem ignora uma placa mal colocada.
Eliú, em Jó 32, era o mais novo entre homens experientes. Ele mesmo admite que teve receio de falar por causa da idade (Jó 32:6). Esperou, ouviu, respeitou. Mas quando percebeu que as respostas estavam vazias, entendeu que permanecer calado seria omissão. Ele declara: “Há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o faz entendido” (Jó 32:8). Sabedoria não é monopólio de quem tem mais anos. É presente de Deus.
Davi também não tinha currículo militar quando enfrentou Golias. Enquanto soldados treinados analisavam riscos, um jovem pastor perguntava: “Quem é esse incircunciso?” (1 Samuel 17:26). Ele afirma que o Senhor o livraria (1 Samuel 17:37) e vence o gigante (1 Samuel 17:45–50). O mundo via tamanho; ele via propósito.
Jeremias tentou se esconder atrás da própria juventude: “Ah, Senhor Deus, eis que não sei falar, porque sou uma criança” (Jeremias 1:6). A resposta foi direta: “Não digas: Sou uma criança; porque a todos a quem eu te enviar, irás” (Jeremias 1:7). Paulo escreve a Timóteo algo que ecoa até hoje: “Ninguém despreze a tua mocidade; sê exemplo” (1 Timóteo 4:12). Não é sobre provar maturidade artificial. É sobre viver de forma íntegra.
Mas o que mais me impacta é que o mesmo Reino que levanta jovens também reacende os mais velhos.
Abraão é chamado aos setenta e cinco anos (Gênesis 12:4). Quando biologicamente tudo parecia tardio, a promessa ainda estava começando (Gênesis 17:5; 21:1–2). Moisés tinha oitenta anos quando falou a Faraó (Êxodo 7:7). O que o mundo chamaria de fim, Deus chamou de missão.
Calebe, aos oitenta e cinco anos, declara: “Ainda hoje estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou” e pede a montanha por herança (Josué 14:10–12). Ele não pede estabilidade; pede território.
No templo, Simeão reconhece o Messias (Lucas 2:25–30). Ana, viúva de idade avançada, servia a Deus continuamente e também testemunha sobre o menino (Lucas 2:36–38). Enquanto muitos distraídos não perceberam nada, dois idosos discerniram o cumprimento da promessa.
O mundo divide por idade. Deus chama por disponibilidade.
Hoje, adolescentes são pressionados a provar valor em números. Idosos, muitas vezes, enfrentam a sensação de invisibilidade. Mas o Reino não mede relevância por fase da vida. Mede por fidelidade.
Juventude, no Reino, não é tempo de espera passiva. É tempo de resposta. Velhice, no Reino, não é aposentadoria espiritual. É maturidade ativa.
No fim, não existe geração descartável no plano de Deus. Existe gente chamada. E chamado não tem prazo de validade — só exige coração disposto.

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