Existe uma pergunta que atravessa os séculos como uma lâmina silenciosa. Ela nasce no diálogo entre Sócrates e Eutífron, preservado por Platão. A pergunta é simples e explosiva: o que é bom é bom porque Deus quer, ou Deus quer porque é bom?
Se o bem é bom apenas porque Deus ordena, então ele parece arbitrário. Poderia Deus, por puro decreto, transformar crueldade em virtude? Mas a própria Escritura já desarma essa suspeita quando afirma: “Bom e reto é o Senhor” (Salmos 25:8). Não diz apenas que Ele pratica o bem — diz que Ele é bom.
Por outro lado, se Deus quer o bem porque ele já é bom, então o bem pareceria uma lei acima de Deus. Só que o texto bíblico aponta em outra direção. “Deus é amor” (1 João 4:8). Não é uma qualidade externa que Ele consulta. É sua própria natureza. O bem não está fora dEle; está nEle.
O chamado dilema de Eutífron tenta nos encurralar numa bifurcação lógica. Mas o cristianismo não escolhe um dos corredores; ele abre a parede. A resposta histórica da teologia cristã é esta: o bem é expressão necessária do caráter de Deus. Ele não decide o bem como quem escolhe um cardápio. Ele não se submete a um código superior. Ele é o padrão.
Quando olho para Cristo, isso deixa de ser equação e vira biografia. O Evangelho de João declara: “O Verbo se fez carne” (João 1:14). E o próprio Jesus afirma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Ele não aponta para o bem como um filósofo apontando para uma ideia. Ele se identifica com a verdade.
A estabilidade moral cristã repousa na imutabilidade divina: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente” (Hebreus 13:8). E Tiago ecoa: “Nele não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17). Se Deus é imutável e sua essência é amor, então o bem não oscila conforme caprichos celestes.
O dilema funciona bem contra deuses temperamentais, como nos mitos antigos. Mas o Deus bíblico se descreve de modo diferente. Em Êxodo 34:6–7, Ele revela seu próprio nome como “misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em amor e fidelidade”. Isso é caráter, não improviso.
Cristo encarna essa coerência. Ele toca o impuro, confronta a hipocrisia, perdoa o arrependido. Ele não altera a régua moral; Ele mostra que a régua sempre foi o próprio ser de Deus. “Deus é luz, e nele não há treva alguma” (1 João 1:5). O mal, então, não é apenas infração de regra. É afastamento dessa luz.
A filosofia levanta o problema com precisão cirúrgica. E deve mesmo levantar. Pensar é um ato de reverência à verdade. Mas o cristianismo responde dizendo que, no fim, o bem não é um conceito suspenso no ar. Ele tem fonte. Tem essência. Tem rosto.
Se Deus fosse apenas poder absoluto, o dilema nos esmagaria. Mas se Deus é o Ser cuja essência é bondade perfeita, então o dilema perde os dentes. O bem não está acima de Deus nem abaixo dEle. Está naquilo que Ele eternamente é.
E talvez a pergunta que reste não seja apenas “de onde vem o bem?”, mas “o que significa viver à luz daquele que é bom?”. Porque, se o Verbo realmente se fez carne, então a resposta ao enigma filosófico não veio em forma de silogismo, veio em forma de cruz e ressurreição.

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