Chegamos a uma pergunta que talvez seja mais difícil do que todas as anteriores: se o amor não é necessidade, posse, projeção ou dependência, então o que ele é? Talvez seja escolha.
Não uma escolha feita uma única vez, no altar, diante de testemunhas ou em alguma noite em que duas pessoas decidiram chamar aquilo de amor. A escolha amorosa é repetida. Ela aparece nos pequenos gestos, nas renúncias, nas conversas difíceis, na capacidade de reparar depois de ferir e, principalmente, na decisão de continuar reconhecendo o outro como pessoa quando seria mais fácil transformá-lo em inimigo.
O amor, nesse sentido, é menos um estado emocional e mais uma prática.
Isso não significa transformar o amor em obrigação fria. Existe desejo, paixão, ternura, atração, encantamento e prazer. Tudo isso importa. Mas sentimentos são instáveis. Mudam com o tempo, com o corpo, com o contexto, com a rotina e com a própria história da relação. Se o amor dependesse exclusivamente da intensidade emocional, nenhuma relação humana teria condições de atravessar o tempo.
É justamente aqui que Erich Fromm se torna novamente importante. Em A Arte de Amar, ele trata o amor como uma capacidade que exige conhecimento, cuidado, responsabilidade e respeito. Amar não é simplesmente sentir muito. É desenvolver a capacidade de agir de determinada maneira diante de alguém.
Isso é menos romântico do que a ideia de paixão eterna. E muito mais interessante.
A paixão pergunta: “o que você desperta em mim?” O amor maduro acrescenta outra pergunta: “o que a minha presença desperta em você?”
A primeira está centrada na experiência do eu. A segunda introduz responsabilidade.
Viktor Frankl talvez levasse isso ainda mais longe. Para ele, a existência humana não se resume à busca de prazer ou felicidade. Há uma dimensão de sentido que aparece quando respondemos às exigências concretas da vida. Aplicado ao relacionamento, isso significa que amar não é apenas perguntar o que recebemos da relação, mas também o que a relação exige de nós.
Há dias em que amar é tocar. Há dias em que amar é ouvir. Há dias em que amar é pedir desculpas. Há dias em que amar é estabelecer um limite. E há dias em que amar é simplesmente não transformar uma frustração em crueldade.
O amor não é sempre delicado.
Às vezes, amar é dizer a verdade.
Às vezes, é deixar alguém ir.
E essa talvez seja uma das maiores dificuldades do amor: compreender que permanência e amor não são sinônimos.
Existem situações em que permanecer é uma forma de covardia. Permanecemos porque temos medo de recomeçar, porque dependemos financeiramente, porque não suportamos a ideia de fracasso ou porque construímos uma identidade em torno da relação. Nesse caso, a permanência pode ser apenas outra forma de medo.
Mas também existem situações em que partir é a reação impulsiva de um ego incapaz de suportar frustração. A primeira dificuldade vira motivo para abandonar. O primeiro conflito vira “incompatibilidade”. A primeira fase menos intensa vira “o amor acabou”.
A cultura contemporânea oscila entre dois extremos: permanecer em qualquer circunstância ou abandonar diante de qualquer desconforto.
Nenhum dos dois é maturidade.
A maturidade consiste em discernir.
Søren Kierkegaard compreendeu a profundidade da escolha. Escolher não é simplesmente selecionar uma alternativa entre várias. É comprometer a própria existência com uma possibilidade. Por isso toda escolha verdadeira produz angústia: ao escolher uma vida, deixamos outras vidas possíveis para trás.
O casamento é uma escolha desse tipo.
Quando alguém diz “eu escolho você”, existe uma frase escondida dentro dela: “eu não escolho todas as outras possibilidades”. Não porque as outras possibilidades deixem de existir, mas porque decidimos não organizar nossa vida em torno delas.
Isso não é prisão.
É compromisso.
E compromisso não é o contrário de liberdade. É uma das formas pelas quais a liberdade se torna concreta.
Uma pessoa que nunca escolhe nada permanece teoricamente livre para tudo, mas praticamente comprometida com nada. Pode manter todas as portas abertas e, justamente por isso, nunca entrar completamente em nenhuma sala.
O amor exige entrada.
Talvez seja por isso que a permanência tenha tanto valor quando é livre. Não é o fato de alguém estar conosco que torna a relação significativa. É saber que essa pessoa poderia escolher de outra maneira e, ainda assim, escolhe estar.
A fidelidade, então, deixa de ser apenas uma regra externa e passa a ser uma expressão da liberdade.
É claro que isso não significa viver em constante dúvida sobre se o outro ficará. Confiança não é ficar perguntando diariamente se a pessoa ainda escolhe você. Confiança é permitir que a escolha exista sem exigir provas permanentes.
John Bowlby e a teoria do apego ajudam a entender por que isso pode ser difícil. Relações seguras não eliminam a necessidade de proximidade; elas oferecem uma base segura a partir da qual a pessoa pode explorar o mundo, desenvolver autonomia e, quando necessário, retornar em busca de proteção e conexão. A segurança não cria dependência absoluta; cria condições para que a autonomia se torne possível.
Isso é uma bela metáfora para o casamento.
O parceiro não deveria ser uma prisão nem uma fuga. Deveria ser uma base.
Um lugar de retorno, não uma cela.
Um vínculo que permite sair para o mundo e depois voltar.
A diferença é enorme.
Murray Bowen chamou atenção para a importância da diferenciação: estar conectado sem perder a capacidade de pensar, sentir e agir como indivíduo. Talvez um casamento saudável seja exatamente isso, duas pessoas suficientemente próximas para compartilhar uma vida e suficientemente diferenciadas para não precisarem destruir a individualidade uma da outra.
Isso também muda a maneira como entendemos o conflito.
Um conflito não significa necessariamente que o amor fracassou. Às vezes, significa apenas que duas subjetividades reais finalmente encontraram seus limites.
O problema não é discordar.
O problema é transformar a discordância em desumanização.
Quando o parceiro deixa de ser “a pessoa com quem discordo” e passa a ser “o inimigo”, algo importante foi perdido.
Martin Buber diria que deixamos de estar diante de um Tu e começamos a tratar o outro como Isso. A relação deixa de ser encontro e passa a ser combate.
A psicologia dos relacionamentos mostra que a qualidade de um vínculo depende menos da ausência absoluta de conflito do que da maneira como o casal lida com ele. John Gottman e seus colaboradores identificaram padrões de interação associados à deterioração conjugal, incluindo crítica, desprezo, defensividade e bloqueio. O dado importante não é que casais saudáveis nunca entrem em conflito. Eles entram. A diferença está na capacidade de reparar, regular e reconstruir a conexão.
Reparação talvez seja uma das palavras mais bonitas para pensar o amor.
Porque amar alguém não significa nunca feri-lo.
Significa reconhecer quando ferimos.
Não significa nunca falhar.
Significa aprender a responder à própria falha.
Não significa nunca mudar.
Significa permitir que a relação atravesse mudanças sem exigir que o outro permaneça congelado na pessoa que conhecemos no começo.
É aqui que a tradição cristã oferece uma ideia que considero especialmente poderosa: graça.
Graça não é dizer que nada aconteceu. Não é negar responsabilidade. É reconhecer a falha sem reduzir a pessoa à falha.
Nesse sentido, perdoar é diferente de esquecer. O perdão pode lembrar perfeitamente o que aconteceu e, ainda assim, recusar-se a fazer daquele acontecimento a identidade definitiva do outro.
C. S. Lewis, ao escrever sobre os amores, percebeu que até aquilo que há de mais belo em nós pode se tornar destrutivo quando ocupa o lugar que não lhe pertence. O amor precisa ser ordenado para não se transformar em idolatria.
Santo Agostinho também ajuda aqui. Amar bem não significa amar menos; significa amar sem transformar aquilo que é finito em absoluto.
Talvez seja isso que falte em muitas relações: não amor, mas proporção.
Esperamos que o parceiro seja amante, melhor amigo, terapeuta, confidente, fonte de autoestima, companhia permanente, pai ou mãe emocional, estimulador intelectual, parceiro financeiro e ainda responsável por manter nossa felicidade funcionando.
É uma tarefa impossível.
Nenhuma pessoa deveria precisar sustentar sozinha a arquitetura emocional de outra.
Uma vida amorosa saudável precisa de outros vínculos: amizades, família, trabalho, interesses, espiritualidade, solitude, comunidade. O casamento pode ser central sem precisar ser total.
E isso não diminui o amor.
Protege-o.
Porque quando o outro deixa de ser responsável por preencher todas as nossas lacunas, ele pode voltar a ser simplesmente alguém que escolhemos amar.
Talvez seja essa a conclusão de toda a série.
O amor começa quando a necessidade deixa de ser confundida com sentimento.
Continua quando a projeção dá lugar ao encontro.
Amadurece quando a posse dá lugar à liberdade.
Aprofunda-se quando o ego deixa de exigir que o outro seja uma extensão de si.
E permanece quando duas pessoas livres continuam escolhendo construir algo juntas.
Não existe garantia absoluta.
Não existe fórmula.
Não existe alma gêmea que nos poupe do trabalho.
Não existe casamento capaz de eliminar o risco.
Existe apenas a possibilidade de duas pessoas olharem uma para a outra e dizerem, repetidamente, por meio das próprias ações: “eu poderia viver outra vida, mas escolho construir esta com você”.
Talvez isso seja o amor.
Não a promessa de nunca poder partir.
Mas a liberdade de poder partir e, ainda assim, escolher ficar.
Porque o amor que não pode ir embora não é necessariamente amor.
Mas aquele que poderia ir - e permanece - talvez seja uma das formas mais profundas de liberdade que duas pessoas podem oferecer uma à outra.
No fim, talvez amar seja isso: não encontrar alguém que nos complete, mas tornar-se alguém capaz de permanecer inteiro enquanto escolhe compartilhar a própria inteireza com outro.
E talvez seja justamente aí que o amor deixa de ser necessidade e se transforma em liberdade.
Referências
Erich Fromm - A Arte de Amar
Søren Kierkegaard - As Obras do Amor
Viktor Frankl - Em Busca de Sentido
John Bowlby - Attachment
Murray Bowen - Family Therapy in Clinical Practice
John Gottman - The Seven Principles for Making Marriage Work
Martin Buber - Eu e Tu
C. S. Lewis - Os Quatro Amores
Santo Agostinho - Confissões
Emmanuel Levinas - Totalidade e Infinito
Thomas Merton - Novas Sementes de Contemplação
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