Havia, às margens de um grande rio, uma cidade chamada Sodora. Era uma cidade antiga, cercada por muralhas altas e torres imponentes, com uma grande praça no centro onde, todos os anos, seus habitantes se reuniam para decidir quem deveria governá-los. Uns queriam um homem forte, outros preferiam os sábios, alguns defendiam leis melhores e havia ainda aqueles que acreditavam que tudo se resolveria quando encontrassem a pessoa certa para ocupar o palácio. As eleições dividiam a cidade em grupos cada vez mais numerosos. Metade comemorava a vitória enquanto a outra metade anunciava que Sodora estava perdida. Os nomes mudavam, as bandeiras mudavam, os discursos mudavam, mas o palácio permanecia no mesmo lugar.
Fora dos muros vivia um homem chamado Oné. Enquanto os habitantes discutiam quem deveria governar a cidade, Oné construía uma grande embarcação. Os moradores passavam por ele e riam.
— Para que serve uma embarcação onde não existe mar?
Oné continuava trabalhando.
— Para quando o rio transbordar.
Alguns achavam graça, outros o consideravam louco. Oné, entretanto, insistia que as margens do rio estavam sendo destruídas, que a água estava cada vez mais suja e que a cidade havia construído suas casas e seus muros perto demais das águas. Os governantes diziam que ele exagerava. Os candidatos afirmavam que suas previsões serviam apenas para assustar o povo. Os especialistas explicavam que não havia motivo para pânico. Os religiosos diziam que era preciso confiar na providência. E os habitantes voltavam à praça para discutir qual candidato seria capaz de salvar Sodora.
Chegou o dia da eleição. Os habitantes escolheram aquele que prometia construir mais muros, distribuir mais alimentos, combater a corrupção e proteger a cidade de seus inimigos. Oné observava tudo de longe, junto à sua embarcação. Um homem que passava perguntou:
— Você não vai votar?
Oné respondeu:
— Estou construindo uma arca.
— Mas você precisa escolher quem vai governar.
Oné apoiou-se sobre o martelo e olhou para o rio.
— A água vai respeitar o resultado da eleição?
O homem não respondeu. Oné então disse:
— Vocês discutem quem deve sentar no trono enquanto esquecem de perguntar por que alguém deveria ter o direito de decidir por todos.
Chamaram-no de inimigo da cidade, de inimigo da democracia e de homem incapaz de compreender como uma sociedade deveria funcionar.
Oné apenas respondeu:
— Dar um nome sagrado ao poder não faz o poder deixar de ser poder.
Pouco tempo depois, o rio transbordou. As águas avançaram sobre os campos, derrubaram casas, atravessaram as ruas e começaram a invadir Sodora. Os habitantes correram para as partes mais altas da cidade, mas, mesmo enquanto a água subia, continuavam discutindo quem era o culpado. Uns acusavam o antigo governante. Outros culpavam o novo. Alguns diziam que a oposição havia provocado tudo. Outros afirmavam que a oposição estava usando a tragédia para tomar o poder.
A embarcação de Oné, porém, estava pronta. Poucos haviam acreditado nele e poucos haviam entrado. A maioria preferira permanecer na cidade, esperando que alguém no palácio resolvesse o problema.
Mas a água não perguntou em quem haviam votado.
Anos depois, em outra região, vivia um homem chamado Abrião. Ele conhecia Sodora e conhecia também a natureza dos homens. Havia visto cidades prosperarem e depois se destruírem porque seus habitantes passaram a acreditar que seus vizinhos eram o maior problema que existia. Em Sodora, cada diferença havia se transformado em motivo para desprezo. Ricos culpavam pobres, religiosos culpavam incrédulos, patriotas culpavam estrangeiros e cada partido encontrava no outro a explicação para todos os males da cidade.
Certo dia, alguns homens procuraram Abrião.
— Sodora está corrompida. O que devemos fazer?
Abrião perguntou:
— Ainda existem pessoas justas naquela cidade?
Os homens responderam que sim.
— E se houver cinquenta?
— Então preservem os cinquenta.
— E quarenta?
— Preservem os quarenta.
— Trinta?
— Preservem os trinta.
— Vinte?
— Preservem os vinte.
— E dez?
Abrião respondeu:
— Procurem os dez.
Então alguém perguntou:
— E se não houver dez?
Abrião permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Ainda assim, não aprendam a odiar.
Os homens ficaram confusos.
— Como podemos reconhecer que uma cidade está doente sem odiar aqueles que a adoeceram?
Abrião respondeu:
— Reconhecer uma cidade doente não exige que vocês se tornem semelhantes à doença.
Foi então que Sodora conheceu uma nova revolução. Os habitantes, cansados dos antigos governantes, reuniram-se na praça e decidiram que o palácio deveria pertencer ao povo. Derrubaram estátuas, arrancaram símbolos, expulsaram os antigos governantes e escreveram sobre os portões:
AGORA O PODER É DO POVO.
Durante alguns dias, houve festa. Os habitantes acreditavam que finalmente haviam vencido. Mas logo surgiu uma pergunta:
— Quem ficará com as chaves do palácio?
— Nós.
— Quem guardará os cofres?
— Nós.
— Quem comandará os soldados?
— Nós.
— Quem decidirá as novas regras?
— Nós.
E, pouco a pouco, os revolucionários começaram a ocupar os mesmos salões, utilizar os mesmos cofres, comandar os mesmos soldados e criar novas regras para os demais.
Alguns perceberam a contradição.
— Não foi para isso que fizemos a revolução.
Mas alguém respondeu:
— Precisamos apenas colocar as pessoas certas no poder.
E novamente começaram a discutir quem eram as pessoas certas.
Foi nesse momento que alguns habitantes compreenderam o que não haviam percebido antes. O problema talvez não estivesse apenas em quem ocupava o palácio, mas no fato de que o palácio concentrava poder suficiente para que qualquer grupo que o conquistasse pudesse decidir pelos demais.
Era possível destruir uma tirania e reconstruí-la com os próprios tijolos.
Oné, já velho, encontrou Abrião certa tarde.
— Você acha que Sodora pode ser salva?
Abrião olhou para a cidade.
— O que você chama de salvar?
Oné ficou em silêncio.
— Talvez tenhamos passado tempo demais tentando descobrir quem deveria governar — disse ele.
Abrião respondeu:
— Talvez a pergunta esteja errada.
— Qual seria a pergunta certa?
Abrião olhou para o palácio.
— O que podemos fazer sem precisar mandar uns nos outros?
A mudança começou longe do palácio.
Uma pequena comunidade percebeu que suas crianças estavam sem professor. Em vez de esperar uma nova ordem, três famílias procuraram alguém disposto a ensinar e organizaram uma pequena escola. Um grupo de agricultores começou a trocar parte de sua produção diretamente por ferramentas. Artesãos passaram a dividir máquinas que nenhum deles conseguiria comprar sozinho. Vizinhos organizaram um fundo para ajudar quem estivesse doente ou sem trabalho. Comerciantes descobriram que podiam resolver entre si problemas que antes levavam meses para chegar aos escritórios do governo.
Nada disso parecia uma revolução. Não havia bandeiras, soldados ou discursos. Mas, pouco a pouco, aquilo que antes precisava ser decidido no palácio começou a ser resolvido entre as próprias pessoas.
Quando uma experiência fracassava, era abandonada. Quando funcionava, outros podiam imitá-la. Comunidades diferentes experimentavam soluções diferentes. Ninguém precisava conquistar toda a cidade para obrigar os demais a seguir o mesmo caminho.
O palácio continuava de pé, mas as pessoas começaram a olhar menos para ele. Não porque alguém tivesse conquistado o poder, mas porque cada vez mais coisas podiam ser feitas sem recorrer a ele.
Alguns habitantes ainda defendiam governantes fortes. Outros continuavam acreditando que as eleições poderiam escolher pessoas melhores. Havia quem quisesse uma nova revolução. Mas agora existia uma alternativa que não dependia de vencer a disputa pelo palácio.
Era possível simplesmente construir outra coisa.
Nem todos concordaram com o novo caminho. E talvez isso tenha sido um dos seus primeiros sinais de saúde. Pela primeira vez, uma diferença não precisava terminar na tentativa de dominar a cidade inteira.
Um jovem perguntou certa vez a Oné:
— Então você não acredita em governantes?
Oné sorriu.
— Acredito que homens podem governar. O que não acredito é que devamos entregar a eles tudo aquilo que somos capazes de fazer uns pelos outros.
Outro perguntou a Abrião:
— E se as pessoas forem más?
Abrião respondeu:
— Então não lhes entregue mais poder do que precisam para fazer o mal.
— E se forem boas?
— Melhor ainda. Não precisarão de tanto poder para fazer o bem.
Sodora nunca se tornou uma cidade perfeita. Continuaram existindo homens egoístas, ambiciosos, violentos e injustos. Continuaram existindo conflitos, erros e diferenças. Mas os habitantes haviam aprendido algo que nenhuma eleição lhes ensinara: nem todo problema precisava ser transformado em uma disputa pelo poder.
O palácio ainda estava de pé. Mas suas salas estavam cada vez mais vazias.
Durante gerações, os habitantes de Sodora haviam perguntado:
— Quem deve governar?
Depois perguntaram:
— Que tipo de governo devemos ter?
Até que alguns começaram a perguntar:
— O que podemos fazer sem precisar governar uns aos outros?
De Oné ficou a lição: a água não respeita eleições. De Abrião, outra: justiça não exige ódio.
E de Sodora restou talvez a mais difícil... liberdade não é apenas escolher quem manda, mas aprender a viver de modo que cada vez menos gente precise mandar.
Talvez a verdadeira terceira via nunca tenha sido escolher entre os homens que disputam o palácio.
Talvez seja construir uma cidade que, pouco a pouco, já não dependa dele.

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