É quase inevitável que, em algum momento, alguém cite Osho e diga que o casamento comum é uma prisão inconsciente. Confesso que essa frase sempre me pareceu uma meia verdade. E meias verdades costumam ser mais perigosas do que mentiras inteiras. Sim, existem casamentos que aprisionam. Mas será que é o casamento que constrói as grades? Ou ele apenas revela algumas daquelas que carregávamos muito antes de colocar uma aliança no dedo?
Essa pergunta muda completamente a discussão.
Talvez o problema nunca tenha sido o casamento. Talvez esteja na maneira como entramos nele: levando conosco nossas carências, nossos medos, nossas expectativas e, sobretudo, nossa necessidade de colocar o próprio eu no centro da relação.
É a isso que chamarei aqui de ego: não simplesmente ao conceito psicológico de ego, mas à tendência humana de transformar as próprias necessidades em medida do relacionamento. O ego pergunta: “O que você pode fazer por mim?” O amor, quando amadurece, começa a perguntar: “Como posso amar você sem transformar você em minha propriedade?”
Vivemos em uma cultura que romantizou a dependência. Frases como “você é minha metade” ou “sem você eu não vivo” são celebradas como demonstrações de amor. Entretanto, observadas com cuidado, podem revelar muito mais necessidade do que liberdade. Erich Fromm, em A Arte de Amar, distingue o amor imaturo do amor maduro justamente pela relação entre necessidade e amor. A questão não é simplesmente precisar ou não precisar do outro. Somos seres relacionais e, inevitavelmente, precisamos uns dos outros. O problema começa quando a necessidade se transforma em posse.
Quem ama apenas porque precisa corre o risco de confundir amor com necessidade. O outro deixa de ser uma pessoa e passa a ser um recurso emocional: alguém que deve oferecer segurança, validação, companhia ou alívio para o próprio vazio.
Martin Buber, em Eu e Tu, oferece uma chave particularmente importante para compreender isso. Em sua filosofia, existem modos distintos de nos relacionarmos com aquilo que encontramos. Na relação Eu–Tu, o outro é reconhecido como sujeito, como alguém que possui sua própria realidade e não pode ser reduzido aos meus interesses. Na relação Eu–Isso, porém, o outro pode ser tratado como objeto, como algo que utilizamos ou administramos. Muitos relacionamentos se desgastam justamente quando deixam de ser encontros entre duas pessoas e passam a funcionar como negociações entre duas carências.
O problema, portanto, não é o amor. É a transformação do amor em instrumento do ego.
Santo Agostinho percebeu algo semelhante ao descrever a tendência humana de voltar-se sobre si mesma. Kierkegaard, por sua vez, examinou o desespero de uma existência que tenta fundamentar sua identidade em algo incapaz de sustentá-la. C. S. Lewis advertiu que até mesmo os amores mais nobres podem tornar-se desordenados quando aquilo que deveria ser amado passa a ocupar o lugar que pertence somente a Deus.
O amor pode, paradoxalmente, tornar-se uma forma sofisticada de egoísmo quando o outro deixa de ser amado por aquilo que é e passa a ser valorizado principalmente por aquilo que proporciona.
A psicologia ajuda a iluminar esse problema por outro caminho. John Bowlby e Mary Ainsworth demonstraram a importância dos vínculos de apego no desenvolvimento humano e mostraram como diferentes padrões de apego podem influenciar a maneira como estabelecemos relações. Murray Bowen, ao desenvolver o conceito de diferenciação do self, chamou atenção para a capacidade de uma pessoa manter sua identidade e seus princípios sem se dissolver emocionalmente no outro.
Isso introduz uma distinção importante: dependência não é o mesmo que interdependência.
A maturidade não consiste em chegar ao ponto de dizer: “Eu não preciso de você.” Isso seria apenas outra forma de isolamento. Tampouco consiste em dizer: “Sem você eu não sou ninguém.” Isso seria dependência.
Talvez o amor maduro esteja em algum lugar mais difícil:
“Eu sou alguém. Você é alguém. E, ainda assim, escolhemos caminhar juntos.”
O casamento não exige duas pessoas completamente autossuficientes. Exige duas pessoas capazes de permanecerem inteiras enquanto aprendem a pertencer uma à outra sem se possuírem.
Carl Jung acrescentaria outra dimensão à questão. O casamento não cria necessariamente nossas sombras; muitas vezes, ele apenas torna mais difícil escondê-las. O ciúme, o orgulho, a necessidade de controle e o medo do abandono podem existir muito antes da convivência. O relacionamento apenas coloca essas disposições diante de nós com uma proximidade da qual já não conseguimos fugir.
Talvez seja por isso que tantas pessoas culpem o casamento. É mais confortável responsabilizar a instituição do que enfrentar o espelho.
O casamento não inventa tudo aquilo que somos. Mas pode revelar aquilo que preferíamos não enxergar.
Existe também um equívoco moderno segundo o qual liberdade significa viver sem vínculos. Se estou livre somente enquanto ninguém pode exigir nada de mim, então minha liberdade depende da ausência do outro. Nesse sentido, ela é extremamente frágil.
A tradição cristã oferece uma concepção diferente. Liberdade não significa simplesmente ausência de vínculos, mas capacidade de amar sem transformar o outro em propriedade. O Novo Testamento descreve o amor como algo que “não procura os seus próprios interesses” (1Co 13:5). Isso não significa anular a própria identidade, aceitar abusos ou deixar de estabelecer limites. Significa que o outro não existe para satisfazer o meu ego.
Viktor Frankl chamou atenção para a autotranscendência: a capacidade humana de ultrapassar o próprio eu em direção a algo ou alguém que considera digno de amor e compromisso. Thomas Merton, em sua reflexão espiritual, também tratou da diferença entre união e absorção. Amar alguém não significa apagar as fronteiras entre duas pessoas, mas encontrar uma comunhão na qual nenhuma delas precise deixar de existir para que a outra permaneça.
Talvez essa seja uma das grandes dificuldades do amor: estar próximo sem possuir, pertencer sem dominar, precisar sem transformar a necessidade em dependência e entregar-se sem desaparecer.
Por isso, a crítica de Osho toca em uma ferida real. Relacionamentos podem, de fato, nascer do medo, da dependência e da necessidade de segurança. Mas identificar essas patologias com o casamento em si é atribuir à instituição uma culpa que muitas vezes pertence à maneira como entramos nela.
O casamento pode revelar prisões que já existiam em nós. E também pode criar novas prisões quando duas pessoas transformam amor em controle, cuidado em vigilância e compromisso em propriedade.
É por isso que o casamento pode ser um espelho tão incômodo.
Ele nos mostra quanto de amor existe em nós — e quanto ainda confundimos amor com necessidade, cuidado com controle, companhia com posse e compromisso com medo de ficar sozinho.
Talvez o casamento não seja uma prisão nem uma garantia de liberdade. Talvez seja um espelho.
Nele, duas pessoas descobrem não apenas quem o outro é, mas também quem elas próprias são quando já não conseguem esconder-se atrás da distância.
O casamento não precisa eliminar nossa liberdade para nos unir a alguém. Precisa ensinar-nos uma forma mais difícil de liberdade: aquela em que escolhemos permanecer sem transformar o outro em propriedade.
No fim, talvez o casamento não seja responsável pelas grades.
“Às vezes, ele apenas acende a luz da cela.”
E somente aquilo que conseguimos enxergar pode, enfim, ser transformado.
Referências
Erich Fromm - A Arte de Amar
Martin Buber - Eu e Tu
Viktor Frankl - Em Busca de Sentido
Søren Kierkegaard - As Obras do Amor
C. S. Lewis - Os Quatro Amores
Carl Jung - Aion
John Bowlby - Attachment
Murray Bowen - Family Therapy in Clinical Practice
Thomas Merton - Novas Sementes de Contemplação
Santo Agostinho - Confissões

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