Ensaio II - O ego não ama. O ego negocia

Existe uma pergunta que raramente fazemos: quando dizemos “eu te amo”, estamos realmente falando de amor ou apenas descrevendo uma troca emocional? O ego é um excelente negociador. Ele raramente entra em uma relação disposto apenas a amar. Na maioria das vezes, entra esperando alguma coisa em troca. Por isso, muitas relações começam como contratos invisíveis. Eu ofereço carinho esperando segurança. Ofereço atenção esperando reconhecimento. Ofereço fidelidade esperando garantias. Ofereço companhia esperando que você preencha minha solidão. Nada disso é necessariamente consciente. O ego negocia em silêncio.

O problema não está em desejar reciprocidade. O amor humano não é uma via de mão única, e relacionamentos saudáveis naturalmente envolvem cuidado mútuo, confiança e responsabilidade. A questão começa quando transformamos aquilo que damos em uma espécie de moeda emocional e passamos a contabilizar silenciosamente o que recebemos. “Eu fiz isso por você.” “Depois de tudo o que fiz, você não pode fazer isso comigo.” “Eu sempre estive ao seu lado. Agora é a sua vez.” Às vezes, aquilo que chamamos de generosidade é apenas uma cobrança que ainda não encontrou sua data de vencimento.

Erich Fromm, em A Arte de Amar, trata o amor não como um sentimento espontâneo que simplesmente acontece conosco, mas como uma capacidade que exige prática, disciplina, responsabilidade, cuidado e conhecimento. Amar, nesse sentido, é mais do que sentir intensamente. É aprender a relacionar-se com o outro sem reduzi-lo às próprias necessidades. O ego, porém, prefere resultados imediatos. Ele pergunta constantemente:

“O que ganho com isso?”

Martin Buber ajuda a aprofundar essa questão. Em Eu e Tu, ele distingue a relação em que encontramos o outro como um “Tu” daquela em que o outro é tratado como um “Isso”. Quando uma pessoa deixa de ser reconhecida em sua própria realidade e passa a ser utilizada como meio para alcançar alguma coisa, a relação muda de natureza. Isso pode acontecer de muitas maneiras. Podemos utilizar alguém financeiramente, sexualmente, socialmente ou emocionalmente. Podemos até utilizar alguém para construir uma imagem de nós mesmos. E essa talvez seja uma das formas mais sutis de instrumentalização: não amar alguém pelo que essa pessoa é, mas pelo que ela representa.

René Girard acrescenta outra camada a essa discussão ao mostrar como nossos desejos podem ser influenciados pelos desejos de outras pessoas. Nem sempre queremos simplesmente aquilo que desejamos. Muitas vezes, aprendemos a desejar porque alguém nos ensinou, direta ou indiretamente, que determinado objeto, pessoa ou estilo de vida possui valor. Isso também pode acontecer nos relacionamentos. Às vezes não desejamos apenas uma pessoa. Desejamos o que ela simboliza: status, beleza, segurança, prestígio, aprovação, uma determinada imagem de sucesso. O ego não quer apenas ser amado. Às vezes, quer ser visto como alguém digno de amor. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

A psicologia também ajuda a iluminar essa dinâmica. Carl Rogers enfatizou a importância da aceitação, da autenticidade e de relações nas quais a pessoa possa desenvolver-se sem precisar representar continuamente aquilo que acredita que o outro espera dela. Murray Bowen, por sua vez, desenvolveu o conceito de diferenciação do self para descrever a capacidade de uma pessoa preservar sua identidade e seus princípios sem precisar romper os vínculos que possui. Quando essa diferenciação é baixa, proximidade pode ser confundida com fusão. E, quando proximidade vira fusão, qualquer autonomia do outro pode parecer rejeição.

John Bowlby e a tradição da teoria do apego também ajudam a compreender por que algumas pessoas experimentam a distância com intensidade desproporcional. Em padrões de apego ansioso, por exemplo, pequenas mudanças na disponibilidade do outro podem ser interpretadas como sinais de abandono. Isso não significa que essas pessoas amem mais. Significa que podem estar sentindo mais medo. E aqui existe uma confusão perigosa: frequentemente chamamos de “amor intenso” aquilo que, na verdade, é ansiedade intensa. Ciúme pode parecer cuidado. Controle pode parecer proteção. Necessidade pode parecer paixão. Medo de perder pode ser confundido com profundidade do amor. O sentimento é real. Mas a interpretação que fazemos dele pode estar errada.

A neurociência acrescenta uma perspectiva interessante, embora não resolva sozinha o problema filosófico. Pesquisadores como Michael Gazzaniga e Antonio Damasio investigaram diferentes aspectos da construção da experiência consciente, da identidade e das narrativas que produzimos sobre nós mesmos. Anil Seth, por sua vez, trabalha com a ideia de que nossa experiência consciente não é uma janela absolutamente transparente para a realidade, mas envolve processos de construção e interpretação. Isso nos lembra de algo desconfortável: o ego não apenas sente. Ele também conta histórias sobre aquilo que sente.

E essas histórias podem ser muito convincentes. “Eu permaneço porque amo.” Talvez. Mas também pode ser: “Eu permaneço porque tenho medo de começar de novo.” “Eu permaneço porque não quero admitir que errei.” “Eu permaneço porque não suportaria ser abandonado.” “Eu permaneço porque construí toda a minha identidade em torno dessa relação.” Às vezes, não permanecemos porque ainda existe amor. Permanecemos porque a narrativa que construímos sobre aquele amor tornou-se maior do que a realidade. E isso explica por que algumas pessoas continuam defendendo relacionamentos que já não existem como relação, mas apenas como memória, obrigação ou medo.

A tradição cristã introduz aqui uma ideia ainda mais radical: morrer para si mesmo. Mas morrer para si não significa destruir a personalidade, abandonar a dignidade ou aceitar passivamente qualquer forma de abuso. Significa deslocar o centro da existência. É deixar de tratar o próprio eu como medida absoluta de todas as coisas. Jesus não chama o ser humano para deixar de existir. Chama-o para deixar de ser o próprio centro.

Dietrich Bonhoeffer percebeu algo semelhante ao refletir sobre a comunidade cristã. Em Vida em Comunhão, ele adverte sobre o perigo de amar uma imagem idealizada da comunidade mais do que as pessoas concretas que a compõem. Quando amamos uma ideia em vez das pessoas reais, inevitavelmente começamos a exigir que elas correspondam à nossa expectativa. O mesmo pode acontecer no casamento. Podemos amar tanto a ideia de “ser amado” que já não conseguimos enxergar a pessoa que está diante de nós. Podemos amar tanto a imagem do relacionamento perfeito que transformamos o parceiro em personagem de uma história que escrevemos antes mesmo de conhecê-lo. Podemos dizer que queremos amar alguém, quando, na verdade, queremos que alguém confirme aquilo que desejamos acreditar sobre nós mesmos.

Talvez a pergunta correta, então, nunca tenha sido simplesmente:

“Quanto eu amo?”

Talvez seja:

“Quanto do meu amor ainda é negociação?”

Quanto do que ofereço depende daquilo que recebo? Quanto da minha fidelidade é amor e quanto é medo de perder? Quanto da minha generosidade continua sendo generosidade quando não é reconhecida? Quanto da minha permanência nasce de uma escolha livre, e quanto nasce do medo de admitir que chegou a hora de partir?

Essas perguntas não tornam o amor mais frio. Tornam-no mais honesto. Porque amar não significa deixar de possuir necessidades. Significa não transformar nossas necessidades em direitos sobre o outro. Amar não significa não esperar nada. Significa não transformar aquilo que fazemos em uma dívida que o outro deverá pagar. Amar não significa nunca partir. Às vezes, amar também significa reconhecer que permanecer pode destruir aquilo que ainda merece ser preservado.

A verdadeira liberdade não nasce da ausência de vínculos, mas da capacidade de escolher sem transformar o outro em propriedade.

O ego calcula. O amor discerne. O ego pergunta: “O que receberei?” O amor pergunta: “O que é verdadeiro, justo e bom?”

No fim, talvez a frase “o ego não ama” precise ser entendida não como uma afirmação de que todo amor humano seja falso, mas como uma provocação:

“Quando o ego ocupa o centro, o amor deixa de ser encontro e começa a se tornar negociação.”

O ego quer garantias antes de se entregar. O amor maduro aprende a oferecer-se sem transformar a entrega em contrato. Talvez amar seja justamente o momento em que deixamos de perguntar apenas o que o outro pode fazer por nós e começamos a perguntar que tipo de pessoa estamos nos tornando ao escolher amar.

O ego negocia. O amor se oferece. E talvez a diferença entre os dois não esteja naquilo que sentimos, mas naquilo que fazemos com aquilo que sentimos.

Referências

Erich Fromm — A Arte de Amar

Martin Buber — Eu e Tu

René Girard — Mentira Romântica e Verdade Romanesca

Carl Rogers — Tornar-se Pessoa

Murray Bowen — Family Therapy in Clinical Practice

John Bowlby — Attachment

Dietrich Bonhoeffer — Vida em Comunhão

Thomas Merton — Novas Sementes de Contemplação

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