À imagem de Deus - Dia 6

O sexto dia termina com uma afirmação que mudaria radicalmente a maneira como tratamos pessoas se realmente acreditássemos nela: o ser humano é criado à imagem de Deus. Antes de profissão, antes de desempenho, antes de utilidade, antes de currículo, antes de cargo na igreja. Imagem de Deus. Parte dos nossos problemas começa quando esquecemos disso.

Vivemos numa cultura que mede valor com extraordinária facilidade. Quanto produzimos, quanto ganhamos, quantas pessoas nos seguem, quanta atenção conseguimos, quão úteis somos. Algumas pessoas permanecem enquanto somos interessantes, convenientes ou necessários. É muito fácil começar a pensar em gente em termos de função. A igreja não está imune a isso. Precisamos de alguém para cantar, alguém para ensinar, alguém para cuidar das crianças, alguém para limpar, alguém para liderar, alguém para contribuir. E sem perceber, pessoas viram recursos humanos com versículos.

O problema não está em servir. Serviço faz parte da vida cristã. O problema aparece quando o valor da pessoa começa a depender daquilo que ela consegue entregar. Quem produz recebe atenção. Quem está forte recebe responsabilidade. Quem adoece, cansa, questiona ou deixa de ser útil começa lentamente a desaparecer do campo de visão. Isso é especialmente perigoso quando usamos linguagem espiritual para encobrir exploração. Há gente exausta sendo elogiada por “se entregar à obra”. Há líderes sem vida familiar porque aprenderam que disponibilidade total é sinal de fidelidade. Há pessoas incapazes de dizer não porque foram ensinadas a sentir culpa sempre que colocam um limite.

Precisamos lembrar que, em Gênesis, o valor humano aparece antes da produtividade humana. A pessoa recebe uma vocação, sim. Mas não recebe dignidade porque cumpriu essa vocação. Ela já possui dignidade. Ser imagem de Deus também deveria mudar nossa relação com poder. Quando encontramos a imagem divina no outro, fica mais difícil tratá-lo como objeto, podemos nos relacionar com alguém como coisa a ser usada ou como presença a ser encontrada. Igrejas também escolhem, mesmo sem perceber, qual dessas relações vão cultivar.

Uma pessoa é alguém a ser pastoreado ou alguém a ser mantido? É alguém a ser ouvido ou alguém a ser gerenciado? É alguém a ser amado ou alguém cuja permanência importa porque ajuda os números? É uma distinção dura, mas necessária. O sexto dia também nos lembra de que Deus chama a humanidade para exercer domínio. E domínio, no contexto da imagem de Deus, não deveria parecer exploração, mas responsabilidade. Poder recebido de Deus deveria parecer mais com cuidado do que com posse.

Isso vale para pais, líderes, pastores, professores, chefes e qualquer pessoa a quem outra confie alguma vulnerabilidade. Quanto mais poder alguém tem, maior deveria ser sua responsabilidade em não reduzir o outro. Uma boa pergunta para uma igreja é: nossa estrutura existe para servir pessoas ou as pessoas existem para sustentar nossa estrutura? Porque instituições sempre encontram maneiras convincentes de justificar a própria sobrevivência. O evangelho, porém, continua colocando pessoas no caminho.

Deus, ensina-nos a reconhecer Tua imagem onde nossa lógica só consegue enxergar utilidade. Perdoa-nos quando transformamos pessoas em funções e serviço em medida de valor. Dá-nos liderança sem dominação, cuidado sem posse e comunidades em que ninguém precise provar que merece existir. Amém.

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