Existe uma coisa meio inconveniente sobre a verdade: a gente costuma gostar muito dela quando ela está iluminando os outros. Quando a luz vira para nós, a conversa muda. Por isso o começo de Gênesis é tão interessante. A terra era sem forma e vazia, havia trevas sobre a face do abismo, e então Deus diz: “Haja luz.” Não árvore. Não mar. Não vida. Luz. Antes de preencher o mundo, Deus o torna visível... Porque o caos fica mais difícil de sustentar depois que conseguimos enxergá-lo.
Por isso tantas vezes preferimos não olhar direito para certas áreas da vida. Não necessariamente porque não sabemos o que está acontecendo, mas porque saber com clareza costuma cobrar alguma coisa da gente. Tem relacionamento que já entendemos. Tem hábito que já conhecemos. Tem medo que sabemos exatamente de onde vem. Tem desejo que já reconhecemos, mesmo quando fingimos que ainda estamos “tentando entender”. Às vezes a confusão é real. Outras vezes ela é só uma forma mais confortável de adiar uma conclusão. Platão imaginou pessoas vivendo numa caverna, olhando sombras e tomando aquilo por realidade. Quando uma delas finalmente encontra a luz, os olhos doem. Sempre achei esse detalhe mais interessante do que a própria metáfora. A verdade nem sempre chega como alívio. Às vezes chega primeiro como incômodo.
A psicologia conhece bem esse terreno. Nós racionalizamos, projetamos, reinterpretamos. Chamamos controle de cuidado, carência de amor, orgulho de personalidade forte, medo de prudência. A mente humana é especialmente criativa quando precisa proteger a versão que construiu sobre si mesma. O problema é que aquilo que mantemos fora da luz continua agindo. Um medo que não reconhecemos continua escolhendo por nós. Uma insegurança que negamos continua aparecendo nos nossos relacionamentos. Um desejo que fingimos não ter continua procurando saída. Ignorar alguma coisa dentro de nós não faz com que ela desapareça. Só faz com que ela opere sem ser interrogada.
Depois de criar a luz, Deus separa luz e trevas. Existe discernimento. Nem tudo que sentimos precisa ser negado, mas também nem tudo precisa ser obedecido. Posso reconhecer uma ferida sem fazer dela minha identidade. Posso admitir uma contradição sem batizá-la de autenticidade. Posso descobrir uma parte pouco bonita de mim sem fingir que ela não existe e sem concluir que ela define tudo o que sou. Isso também vale para comunidades. Igrejas igualmente constroem narrativas sobre si mesmas. Podem dizer que são acolhedoras e não perceber quem nunca consegue pertencer. Podem falar sobre liberdade e cultivar medo. Podem pregar graça e funcionar pela culpa. Podem defender verdade e desenvolver enorme dificuldade de olhar para os próprios erros.
“Haja luz” também é uma oração para a igreja. Não apenas para que sejamos vistos, mas para que consigamos nos ver. Antes de perguntar quanto crescemos, é necessário perguntar no que estamos nos tornando. Antes de perguntar quantas pessoas alcançamos, precisamos perguntar o que essas pessoas encontram quando chegam perto. Propósito não começa necessariamente com um plano. Muitas vezes começa com clareza. E a primeira pergunta desta semana é simples: o que precisamos parar de fingir que não vemos?
Deus, traz luz para aquilo que mantemos em penumbra. Para as histórias que contamos sobre nós mesmos, para nossos motivos mais escondidos e para aquilo que preferimos chamar por outro nome. Dá-nos coragem para ver e humildade para reconhecer. Antes de nos transformar, ensina-nos a enxergar. Amém.

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