O espaço necessário - Dia 2

Existe uma ideia estranha de liberdade segundo a qual ser livre significa não ter limites. Quanto menos fronteiras, melhor. Quanto menos “não”, mais autonomia. Só que basta observar qualquer coisa viva por alguns minutos para perceber que limites não são inimigos da vida. Uma célula existe porque tem membrana. Um corpo existe porque termina em algum lugar. Um rio só corre porque possui margens. Sem fronteira, muita coisa que chamamos de liberdade vira simplesmente dispersão.

No segundo dia da criação, Deus separa águas de águas e estabelece um espaço entre elas. O texto não é exatamente uma aula de física, mas existe ali uma ideia recorrente em Gênesis: Deus cria também separando. Nem toda separação é ruptura. Algumas separações tornam a existência possível. Isso aparece cedo na vida. Crescer envolve aprender onde eu termino e onde o outro começa. Crianças pequenas precisam, aos poucos, descobrir que a mãe não é uma extensão delas. Adultos também precisam aprender versões mais sofisticadas da mesma lição. É possível amar alguém sem possuir essa pessoa. É possível cuidar sem controlar. É possível pertencer sem desaparecer.

Fronteiras confusas costumam produzir relações igualmente confusas. Quando não sabemos diferenciar responsabilidade própria e responsabilidade alheia, acabamos assumindo culpas que não são nossas ou transferindo para os outros aquilo que deveríamos enfrentar. Algumas relações parecem intensas justamente porque quase não há espaço entre as pessoas. Tudo é compartilhado, tudo é cobrado, tudo precisa ser explicado. Chamamos isso de proximidade, mas às vezes é apenas invasão com linguagem afetiva. Limite não é ausência de amor. Muitas vezes é exatamente aquilo que permite que o amor permaneça amor.

E igrejas também precisam aprender isso. A expressão “somos uma família” pode ser linda, mas também pode ser perigosa quando começa a significar que ninguém tem direito a privacidade, discordância ou distância. Comunidade não exige fusão. Uma liderança saudável não precisa controlar todas as decisões pessoais de alguém. Pertencer a uma igreja não significa terceirizar consciência. Submissão não deveria ser um nome religioso para apagamento. Também existem limites na outra direção. Uma comunidade não consegue dizer sim para tudo, fazer tudo, atender todas as expectativas e manter-se saudável. Existe uma fantasia muito comum de que uma igreja fiel precisa estar sempre disponível, sempre produzindo, sempre oferecendo alguma coisa.

Não precisa. O segundo dia nos lembra de que Deus não cria apenas adicionando. Ele também cria estabelecendo espaços. Há coisas que precisam ficar de um lado e coisas que precisam ficar de outro. Há responsabilidades que pertencem à liderança e outras que não pertencem. Há questões comunitárias e outras íntimas. Há momentos de aproximação e momentos de distância. Há sim e há não. A maturidade tem menos a ver com derrubar todas as fronteiras e mais com aprender quais fronteiras protegem a vida e quais apenas protegem o medo.

Também é possível usar limites para não amar. Construir muralhas e chamá-las de sabedoria. Afastar-se de tudo que exige vulnerabilidade e chamar isso de paz. Discernimento continua sendo necessário. A pergunta não é simplesmente “há limites?”. A pergunta é: para que eles existem? Protegem pessoas ou protegem poder? Preservam liberdade ou impedem intimidade? Criam espaço para amadurecer ou apenas mantêm tudo sob controle?

Deus, dá-nos sabedoria para reconhecer os limites que geram vida. Ensina-nos a amar sem possuir, servir sem controlar e pertencer sem desaparecer. Mostra-nos também onde usamos fronteiras para fugir daquilo que exige coragem. Que saibamos construir espaços onde pessoas possam respirar, crescer e continuar sendo inteiras diante de Ti. Amém.

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