Terra, sementes e frutos - Dia 3

Existe uma forma muito eficiente de nunca mudar: se apaixonar pelo próprio potencial. Potencial é confortável porque permite imaginar tudo aquilo que poderíamos ser sem necessariamente enfrentar o trabalho de nos tornar alguma coisa. “Eu poderia escrever.” “Eu poderia estudar.” “Eu poderia mudar.” “Eu poderia fazer.” “Eu tenho capacidade.” Pode até ter. Mas capacidade não é fruto.

No terceiro dia, as águas se ajuntam, aparece a porção seca e a terra começa a produzir vegetação. Sementes, plantas, árvores, frutos. Há algo bonito nessa passagem porque Deus cria uma realidade capaz de gerar continuidade. A árvore não é apenas árvore. Ela carrega semente. Aristóteles falava da diferença entre potência e ato. Uma semente tem a potência de se tornar árvore, mas não é uma árvore em miniatura apenas esperando aplausos por tudo que poderia vir a ser. Entre potência e realização existe processo.

Ter capacidade para amar não significa amar bem. Ter inteligência não significa ter sabedoria. Ter talento não significa ter disciplina. Ter boas intenções não significa produzir bons resultados... Somos muito bons em avaliar a nós mesmos pelas intenções e os outros pelos efeitos que causam. “Eu não quis dizer isso.” “Não foi minha intenção.” “Você entendeu errado.” Pode ser. Mas frutos também contam histórias. Jesus, mais tarde, usaria exatamente essa imagem: árvores são reconhecidas pelos frutos. É uma metáfora menos romântica do que parece, porque fruto é aquilo que sai de nós e chega ao outro.

Podemos dizer que somos pacientes, mas como as pessoas se sentem quando erram perto de nós? Podemos dizer que valorizamos diálogo, mas o que acontece quando alguém discorda? Podemos afirmar que amamos, mas que tipo de ambiente nosso amor produz? Uma coisa é identidade declarada. Outra é fruto. Isso também vale para igrejas. Uma comunidade pode ter uma declaração de valores impecável e produzir pessoas assustadas. Pode falar muito de graça e formar gente obcecada por merecimento. Pode falar de família e gerar relações baseadas em culpa. Pode defender maturidade e continuar infantilizando quem deveria aprender a decidir.

Uma pergunta mais útil do que “no que acreditamos?” é “o que estamos produzindo?”. Não porque doutrina seja irrelevante. Pelo contrário. Se acreditamos de verdade em alguma coisa, em algum momento essa crença deveria ganhar corpo. Uma teologia da graça deveria produzir alguma graça. Uma teologia do perdão deveria produzir gente capaz de perdoar. Uma teologia da dignidade humana deveria produzir ambientes em que pessoas não sejam tratadas como instrumentos.

Uma igreja que fala sobre fruto precisa ter coragem de olhar para o próprio solo. Que tipo de gente floresce aqui? Que tipo de comportamento é premiado? O que precisa ser escondido para continuar pertencendo? Quem pode errar sem ser destruído? Quem consegue crescer sem precisar reproduzir exatamente a mesma forma? Sementes carregam possibilidade. Solo cria condições. Tempo faz sua parte. E crescimento quase nunca acontece por decreto. Transformação espiritual não é uma sucessão de frases bonitas, mas um processo muitas vezes lento de cultivar aquilo que queremos ver existir.

O terceiro dia deixa uma pergunta pouco confortável: se alguém observasse apenas os frutos, sem ouvir nossos discursos, o que concluiria sobre a árvore?

Deus, não nos permita confundir potencial com maturidade, intenção com fruto ou discurso com transformação. Dá-nos paciência para cultivar o que leva tempo e honestidade para reconhecer o que realmente estamos produzindo. Faz de nós solo fértil para aquilo que vem de Ti. Amém.

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